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Colombia e a Chapecoense

Atualizado: Abr 8


Projeto Ciclos - Diário de Bordo 35

No posto de gasolina cozinhamos, vimos um filme no computador e dormimos tranquilos. No próximo dia cruzaríamos a oitava fronteira da viagem e pisaríamos solo colombiano.

Os trâmites fronteiriços demoraram quase duas horas, tivemos que comprar um seguro obrigatório para o carro, mas não nos puseram problemas em relação ao vidro de um dos faróis dianteiros que se havia caído no Ecuador.

Chegamos no nosso destino no início da noite, a cidade de Pasto, o GPS nos levou para um endereço equivocado, longe de onde tínhamos que ir, era hora de pico, bastante trânsito... Resultado: impaciência mútua.

Paramos em uma praça para tentar nos localizar e um outro carro parou na nossa frente, um senhor desceu e veio em nossa direção. Perguntou se éramos chilenos, e nos contou que havia estudado odontologia no Chile. Ao final, se ofereceu para levar-nos até o endereço que buscávamos. Lindo, não? Justo no momento em que nos predispusemos a parar e perguntar, o auxílio veio até nós.

Estivemos duas noites na casa de Lucia, que nos recebeu através da rede Couchsurfing, mas terminamos não interagindo muito. Tínhamos um quarto separado da casa e não compartilhamos nenhuma refeição, nem sabíamos se podíamos usar a cozinha. Foi uma experiência de CS diferente, mas positiva.

270km ao norte estava a cidade de Popayan, com um centro histórico todo pintado de branco, lindo e cheio de vida. Lá era o lar de Leonardo, um viajante de moto cheio de energia que encontramos enquanto estávamos na Patagônia argentina, em outubro de 2015 (mais de um ano atrás). Ele é dono de uma lanchonete e, além de nos dar comida gratuita, nos hospedou num hotel por duas noites. Valeeu Leonardo!!

Passamos por uma situação curiosa no dia em que continuamos a viagem: o América de Cali, time de futebol tradicional da Colômbia, havia conquistado o acesso à primeira divisão do campeonato nacional. A acidade estava em festa, inclusive haviam trechos da estrada interrompidos pelos torcedores em êxtase. Viva América!!

Estávamos entrando no “eje cafetero”, região produtora de café colombiano, carregada de vistas bucólicas, cultura e tradições. A marca de café mais conhecida no país é chamada Juan Valdez, e é formada por uma associação que representa 50 mil famílias pequenas produtoras de café, que tem extensões de terra de 2 hectares em média. Um negócio social, pois o dinheiro não fica concentrado na mão de alguns poucos grandes produtores.

Estávamos no povoado de Salento, nas montanhas do eje cafetero, em companhia de Eddie Rock (que conhecemos em Janajpacha, na Bolivia), e de nossa nova amiga Tatiana, curtindo o clima de Pueblo, café e montanha quando soubemos do acidente do avião que transportava a equipe da Chapecoense.

Conversamos, refletimos, conversamos mais, e decidimos mudar nosso trajeto na Colômbia, o que representava deixar de visitar a capital Bogotá, e ir para a região o acidente... Talvez pudéssemos ser úteis. Viajamos todo o dia na AlMa (nosso carro) e no final da tarde entramos numa estrada secundária, que se tornou um caminho de terra. Já escuro, o trajeto tornou-se dramático quando entramos num trecho de muito barro onde eu não tinha controle do carro. Estávamos numa descida e ele simplesmente ia seguindo o “trilho” no meio do barro, não importando para onde eu virasse o volante. Nos olhamos tensos e a Marcela me disse “Não para!”. Se eu parasse ficaríamos atolados.

Saímos do atoleiro e imediatamente parei o carro. Sentia o coração batendo rápido. Olhamo-nos e nos abraçamos. Nos restava torcer para não encontrar um trecho assim numa subida; seria fatal, ficaríamos presos ali provavelmente durante toda a noite, até que algum caminhão ou caminhonete nos resgatasse.

Felizmente esse foi o pior trecho. Depois de uma hora chegamos à pequena cidade de La Ceja, onde dormimos em um estacionamento. Pela manhã dois homens vieram falar conosco, atraídos pelo carro, e terminaram nos presenteando com dois salgados, “para o café-da-manhã”.

Fomos no hospital de La Ceja, depois no aeroporto de Medellín, falamos com várias pessoas, com o diretor do hospital, com repórteres, com a responsável pelos voluntários da prefeitura de Medellín, mas nossa ajuda não era necessária. Inclusive sentimos um clima de competição no aeroporto em relação aos outros voluntários... uma situação estranha.

Assim chegamos num ponto sem saída: nos restava continuar a viagem. Resolvemos ir para Guatapé, outro pequeno povoado turístico, ao lado da maior represa de Colômbia. Estivemos três noites lá, em clima de miniférias em povoado do interior, num hostel bem econômico no centro do povoado. Nos apaixonamos por Guatapé. Nasce em nós uma vontade de parar por pelo menos um ano em um povoado pequeno como Guatapé, trabalhando com turismo, tendo uma rotina.

Eddie nos disse que a vida das pessoas segue em ciclos de caos e ordem. A ordem seria uma vida com uma rotina estabelecida, com uma casa, um trabalho, horários, etc. O caos seria o oposto, uma vida sem rotina onde não se sabe como será o próximo dia, como em uma vida de viagem. Quando nos cansamos da ordem, nos movemos em direção ao caos, e vice-versa.

Estamos meditando sobre isso, e sentimos que é o momento de nos movermos para a ordem.

Informações da viagem:

Mapa do trajeto:

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