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Fazendo famílias no Ecuador

Atualizado: Abr 8


Projeto Ciclos - Diário de Bordo 33

No dia em que o Brasil comemora sua independência nós entramos no Ecuador, um país autossuficiente em petróleo e que, reiteradas vezes tem afirmado sua soberania tomando decisões que vão de encontro aos interesses de países tão poderosos como os EUA e a Grã Bretanha como, por exemplo, dizendo aos estadunidenses que só renovaria seu acordo militar com eles, no qual o Ecuador cedia uma parte de seu território para a instalação de uma base militar dos EUA, se eles, igualmente, cedessem uma parte de seu território para a instalação de uma base militar ecuatoriana (https://www.youtube.com/watch?v=923H7rxQjd4). O governo dos EUA recusou a proposta. Enquanto isso, o Brasil tem um informante dos EUA como presidente (http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/05/1771016-wikileaks-diz-que-michel-temer-atuou-como-informante-dos-eua.shtml).

Os trâmites para cruzar a fronteira foram tranquilos; havia uma grande estrutura, mas poucas pessoas efetivamente indo e vindo entre o Perú e o Ecuador. Estávamos ao nível do mar, e 200 km depois paramos para dormir dentro da AlMa (nosso carro) a dois mil metros de altitude, em um posto de gasolina. Durante o trajeto passamos por uma estrada de mão simples com plantações de bananas dos dois lados, um grande lugar-comum; assim como as pessoas no mundo associam carnaval e futebol ao Brasil, eu pensava em estradinhas cercadas de bananais quando pensava no Ecuador.

Dois dias depois chegamos à cidade de Cuenca, agradável, verde, histórica, turística. Ela nos impressionou positivamente pelo bonito centro histórico, pelas ruas limpas, e pelos km e km de parques nas margens dos rios. Esta e Sucre, na Bolivia, são as duas cidades grandes mais bonitas que vimos na viagem até agora.

Para completar, fomos parte de uma família da classe média cuencana por seis dias, a família de Micaela e Mathias (que conhecemos na Bolivia). Especiais, saem da superficialidade e tocam temas de fundo em suas conversas; uma família que busca uma evolução espiritual em conjunto.

Saindo de Cuenca, passamos pelo Parque Nacional Cajas, a quase quatro mil metros de altitude. Se pudéssemos resumir este Parque em duas palavras, elas seriam Frio e Fantasia. Frio porque a diferença de temperatura em relação a Cuenca (que estava a somente 30 km de distância) nos fez mudar de bermuda e chinelo para calça, blusa e toca. Fantasia porque a paisagem formada pelo céu nublado, lagoas com águas entre o cinza e o azul, árvores com tronco marrom e arbustos verdes, parecia saída de algum livro de sonhos. Esta noite passamos num posto de gasolina, já em terras baixas, 100km depois de Cuenca.

Nossa próxima parada era no povoado de Canoa, litoral ecuatoriano, na zona atingida pelo terremoto de 7,8 graus na escala Richter que aconteceu em 16 de abril deste ano (2016). Ali faríamos um trabalho voluntário num hotel através da rede Workaway (www.workaway.info), por quatro semanas, ganhando comida, hospedagem e gorjetas dos hóspedes. Nestes últimos dias de viagem estávamos fazendo um experimento para ver quantos km o carro fazia com um tanque de combustível, e o diesel terminou quando atravessávamos uma ponte de centenas de metros, justo antes de um ponto onde havia somente uma pista para passar os veículos nos dois sentidos... hahaha, podia ser pior... e foi: nós não marcamos quantos km o carro fez; ou seja, temos que repetir o teste, hehehe.

Nosso trabalho no hotel é na recepção, que também é um bar, que também é um restaurante. Assim, recebemos os hóspedes, fazemos reservas, recebemos pagamentos, servimos mesas, fazemos pedidos, colocamos música, fazemos coquetéis e sucos, ufa... O movimento não é constante, então há momentos de calmaria e momentos de trabalho, que são mais intensos nos finais de semana. Estamos aprendendo bastante.

O hotel é lindo e tem uma boa infraestrutura. Seu ponto alto é a piscina, com linhas orgânicas que imitam um pequeno rio rodeado por rochas e um bonito paisagismo.

Aproveitando que estávamos em Canoa, eu queria ir trabalhar na Finca Rio Muchacho, um sítio de produção orgânica conhecido internacionalmente e recomendado pelo site Trip Advisor e pela National Geographic. Fomos conhecê-la num dia livre, acampamos por lá. Mas não tivemos uma boa impressão, o lugar não estava bem cuidado. Por ser tão reconhecida, e por cobrar pelo voluntariado, esperávamos mais. O Ashram Chamánico Janajpacha (perto de Cochabamba na Bolivia) era mais lindo, nos proporcionou interessantes aprendizados e não cobrava nada.

Depois de nossa visita à Finca, resolvemos que eu iria passar uma semana lá (eu estava determinado em entender por que eles eram tão famosos), enquanto a Marcela permaneceria trabalhando no hotel. Essa seria a primeira vez que nos separaríamos na viagem.

A semana foi num clima total de sítio: a rotina começava às 6:15 da manhã e incluía dar de comer aos animais e cuidar da terra. A experiência mais marcante para mim foi mover dois leitões de chiqueiro, carregando cada um nas costas, dentro de um saco; eles estavam aterrorizados, e me deu pena vê-los assim. Eu recomendo a experiência de cuidar de animais de abate, principalmente aos que comem carne. Me atrevo a dizer que todos que consomem carne deveriam ter a experiência de alimentar e de matar os animais... Comer mas não ter coragem de matar é hipocrisia.

Viva a coerência!

*Os planos eram ficarmos quatro semanas trabalhando no hotel, mas acabamos ficando sete. A família ecuatoriana que administra o hotel é linda e praticamente nos adotou, fazendo-nos sentir-nos em casa. Gracias Tulio, Carla, Esperanza, Lorena, Rolando, Leonela, Carlita e Greg, o proprietário do hotel, que é uma figura!

Mapa do trajeto:

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