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Nos aprofundando no freeganismo

Atualizado: Abr 15


Projeto Ciclos - Diário de bordo 22

“Ciao”, é uma expressão italiana que significa tanto “Olá” como “Tchau”.

Durante todo o mês de fevereiro continuamos trabalhando no restaurante, período no qual eu cumpria diariamente um ritual que consistia em despertar às 10:00, fazer uma pequena prática de yoga, tomar banho, comer banana com aveia de café-da-manhã, e partir pedalando até Algarrobo, a cidade vizinha. A Marcela cumpria quase o mesmo ritual, com a diferença que ela não fazia yoga (mas sempre promete que começará a fazer no futuro, hahaha), e que não ia ao trabalho no mesmo horário que eu.

Foto 1 : Carrinho de musica.

No início do caminho eu cruzava com um senhor que tinha um carrinho do tamanho de um carrinho de pipoca, que é uma grande caixa de música tocada manualmente através de uma manivela. Esse carrinho exalava uma magia que me transportava a parques de diversões com suas tendas coloridas e luzes amarelas durante a noite, palhaços, vendedores de pipoca e algodão doce... um tipo de parque onde eu nunca estive, mas que acredito estar em meu subconsciente por imagens que vi em filmes.

Falando em parque de diversões, aproveitamos um dia de folga e fomos em um aqui em El Quisco, Chile. Fomos em apenas um brinquedo, que ficava girando, e notamos que nossa resiliência aos giros diminuiu bastante em relação há uns 10 anos atrás, hehehe. Saímos do brinquedo tontos, e a Marcela ficou uns minutos sentada em um banco para se recuperar.

Foto 2: Comprando os passaportes.

No verão há muitos turistas por aqui, quase todos chilenos, e alguns argentinos, e o restaurante está quase sempre cheio. Como disse no diário de bordo anterior, trabalho lavando pratos, ou seja, no final da cadeia de produção do restaurante, e fiquei impressionado com a quantidade de comida que vai para o lixo lá diariamente, e igualmente me impressionou o fato dos colegas de trabalho jogarem comida no lixo sem nenhuma cerimônia. Não estamos acostumados a jogar comida no lixo; pelo contrário, aproveitamos tudo o que podemos.

Esse choque inicial me proporcionou uma reflexão: será que eu também me acostumaria a jogar comida no lixo se trabalhasse num restaurante por mais tempo? Quantas pessoas poderiam ser alimentadas somente com os alimentos que são desperdiçados em um único restaurante em um dia? Foi pensando assim que, aos poucos e com a ajuda dos companheiros de trabalho, comecei a interceptar uma parte dos alimentos que iriam para o lixo (lembrando que a Marcela e eu somos ovolactovegetarianos, ou seja, não comemos carnes, mas comemos ovo, leites e derivados), para comer depois do trabalho. Com essa prática, recolho saladas com alface, tomate, azeitonas, pedaços de pizza, nhoque, fettuccine (um tipo de macarrão), pão, etc., e nossos gastos com comida são praticamente destinados para a compra de frutas e aveia.

Sabemos que o desperdício de alimentos não é responsabilidade exclusiva dos restaurantes, mas é um reflexo de nosso modo de vida. Fomos educados como se vivêssemos num planeta com recursos infinitos, e o desperdício de materiais é uma das consequências disso. Como sensibilizar as pessoas para que saibam que vivemos em um mundo com recursos finitos?

“Lixo é uma palavra inventada por nós, seres humanos, pois, na natureza, o que é resíduo para um ser vivo é alimento para outros seres”.

Em linhas gerais, o desperdício ocorre em duas etapas num restaurante: primeiro na etapa de preparação, depois na etapa de consumo. Quem quer ir a um restaurante, pedir uma salada e receber uma folha de alface murcha, ou um tomate um pouco mais maduro? Essa qualidade é mantida à custa do desperdício da comida que não se encaixa no padrão, e tudo isso está inserido no preço dos pratos (pois se não fosse assim, o negócio não seria rentável). Na etapa de consumo o desperdício se dá nos restos de comida que ficam no prato (quem nunca deixou restos de comida num prato, que atire a primeira pedra).

Foto 4: Amigos adotando o freeganismo


A raiz das duas formas de desperdício de comida são uma: nós. Primeiro porque há demanda para um certo padrão de apresentação dos alimentos (afinal, “estou pagando”), e segundo porque nós mesmos terminamos deixando comida em nossos pratos. No fim das contas, quem quer comer os restos? Qualquer mudança no sistema passa antes por uma mudança interior nossa.

“Freeganismo é um movimento de pessoas que recuperam e consomem alimentos que são desperdiçados em feiras, supermercados e restaurantes, por exemplo”.

Agora que já apontamos os “culpados”, o que fazer para melhorar? As possibilidades de mudanças são inúmeras... E se esses alimentos fossem diariamente destinados a instituições ou escolas, ou doados a quem quisesse recebê-los? E se os resíduos orgânicos fossem compostados e transformados em adubo? Abrindo um pouco mais o nosso leque, e se houvesse um programa de coleta seletiva e reciclagem dos outros resíduos? Clichê à parte, onde há problemas, igualmente há muitas oportunidades.

Após essa experiência, senti que realmente é possível viver com o desperdício de outras pessoas. Mas não foi apenas essa importante experiência que tivemos. Foram dois meses de trabalho num clima bem positivo; todos os dias nossos companheiros de trabalho nos recebiam com sorrisos e alegria, um clima que é mantido pelo coração do restaurante: a cheff, uma pessoa linda, que é ótima para se relacionar com as pessoas e se importa com o bem-estar de cada um dos trabalhadores. Esse trabalho nos deu novas experiências de vida, e crescemos um pouquinho mais. Agradecemos a todos os companheiros pelos momentos compartilhados, e acima de tudo, por todos os sorrisos!!

Ciao, ciao!!

Informações da viagem:

Mapa do trecho:

Dia 315 a 343, 01/02/2016 a 29/02/2016

El Quisco (Casa de José y Alia)

Gastos até agora (R$): 18.412,96

Gastos por dia (R$): 53,68

Distância pedalada até agora (km): 3319

Distância percorrida de carona, de ônibus, de barco e de trem até agora: 6923

Furos de pneu: 11

#Chile #ProjetoCiclos #OsAntípodas #diáriodebordo

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