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Projeto Ciclos - Diário de Bordo 3

Atualizado: Abr 7

Dia 38 ao 48 - 30/4/2015 a 10/5/2015

De: Dourados-MS, Brasil

Para:Assunção, Paraguai

Gastos até agora: R$ 1683,00

Gastos por dia: R$35,06

Distância pedalada até agora: 551km

Distância percorrida por outros transportes até agora: 844km

Furos de pneu até agora: 2

Foto1: Trajeto total. De Ourinhos/SP até Assunção/PY.

Depois de 27 dias em Dourados-MS, recomeçamos a pedalar, com ansiedade para conhecer novos lugares e pessoas, e também para ver como o joelho da Marcela se comportará após a recuperação. A partir de agora faremos duas sessões de alongamento por dia, antes e depois da pedalada.

Nossa primeira parada foi na Fazenda Dominó, do pai da Karin (de Dourados), onde passamos três agradáveis dias, com sessões diárias de noções básicas de agronomia, dadas pelo Alexandre, engenheiro agrônomo de coração, que realmente gosta do que faz, nos mostrando o funcionamento da fazenda. Essa experiência foi ótima para nós, pois pudemos escutar um pouco da visão de mundo de um agricultor que pratica a monocultura de larga escala, e pudemos ver que nós, humanos, sempre tentamos fazer o que acreditamos que seja o melhor... As pessoas são boas.

Foto 2: Fazenda Dominó, Ponta Porã/MS.

Depois da fazenda, seguimos para Ponta Porã-MS, que fica na divisa com o Paraguai. A divisa, na verdade, é um canteiro que separa duas avenidas: de um lado o Brasil, de outro o Paraguai (Pedro Juan Caballero). O caminho plano do MS é ótimo para pedalar; há um grande potencial para o incentivo ao transporte por bicicletas em suas cidades. A paisagem das estradas do MS me chamaram a atenção por três motivos: relevo plano, plantações de milho que iam até a linha do horizonte, e pores-do-sol maravilhosos.

Em Pedro Juan fomos cuidados por David e Hégar, da bicicletaria ANSA 2 Ruedas, que nos ofereceram almoço, nos levaram para tirar o visto, nos colocaram num hotel e nos levaram para conhecer um dos pioneiros do ciclismo na cidade: Juan, com quem conversamos em portunhol e tomamos um "rico tereré"'. Também comemoramos o aniversário da Marcela, de 32 anos, ela ganhou um bolo de maçã com uma vela de fósforo improvisado na hora. Neste dia choveu bastante.

Foto 3: Parque Estadual Cerro Corá.

Saímos de Pedro Juan com destino à cidade de Yby Yau, a 100Km dali. Eu queria parar no meio do caminho, num parque nacional, mas a Marcela queria seguir direto. Então, relutante, aceitei pegar carona até Yby Yau, e vimos pelos vidros de uma caminhonete, lindas formações rochosas que se destacavam na paisagem verde, com suas cores marrons.

Em Yby Yau tivemos uma noite filosófica com o Sr. Marcílio que falou sobre sua vida e suas visões da vida, desafiando sensos comuns e tecendo críticas a muitas coisas. Ele é bastante culto, leu sobre muitos assuntos, mas me pareceu que perdeu a fé na humanidade.

No dia seguinte partimos para Concepción, na beira do grande Rio Paraguai, mesclando 44Km de carona e 65Km de pedal. Nossa ideia era descer o rio de barco até Asunción, a capital do país, porém o barco passaria ali apenas em 10 dias. Não poderíamos esperar esse tempo, e, para podermos ficar duas semanas num centro de permacultura no futuro, e para encontrar com minha família na divisa com a Argentina em cerca de um mês, pegamos um ônibus para Asunción, depois de passarmos a noite num hotel antigo, bonito e comermos uma pizza, o que acabou sendo a comemoração do aniversário da Marcela.

Foto 4: Rio Paraguay em Concepción/PY.

Na rodoviária de Concepción passamos por algumas situações: primeiro um pneu furado, depois que o vendedor de passagens acima do peso pegou minha bicicleta para dar uma volta. Só pode ter sido o excesso de peso, pois não havia nada pontiagudo no pneu quando o troquei. Depois, após embarcar as bikes, o mesmo vendedor veio nos cobrar por elas. Ficamos surpresos, e a Marcela disse, gastando todo seu castelhano, para devolverem nosso dinheiro pois não iríamos mais. Acho que o vendedor entendeu bem a mensagem, pois desistiu de cobrar.

Foto 5: Segundo furo no pneu.

Em Asunción dormiríamos na rodoviária, mas à meia-noite apareceu o Leonardo, amigo do David, que nos levou para sua casa. Lá dormimos em segurança, mas tivemos que mudar de lugar durante a noite, pois haviam dois gatinhos bebês que estavam 100% despertos que ficavam pulando sobre nós, não nos deixando dormir. Ao amanhecer, cruzamos a cidade de bicicleta em direção à casa da Tia Beatriz, uma carioca que vive a mais de trinta anos no Paraguai, que nos recebeu com os braços abertos.

Passamos os dias conhecendo a cidade e um pouco da história do país, e sentindo como a Guerra do Paraguai mudou sua história; fala-se até em genocídio aqui quando se referem a ela. Também vimos a final de um torneio sul-americano de futsal, a Copa Libertadores, entre o "Brasil Kirin" e o "Boca Juniors" (Argentina), que terminou com a vitória brasileira por 5 a 3, com dois gols do consagrado jogador Falcão, pra delírio da torcida paraguaia, que não escondia sua preferência pela equipe brasileira.

Foto 6: Ônibus urbano paraguaio.

Os ônibus urbanos paraguaios são uma atração à parte. Antigos, coloridos e rápidos, deixam sua marca. Os motoristas estão sempre com um tereré na mão enquanto dirigem, e alguns vão escutando reggaeton em alto e bom som, um estilo musical que mescla a batida do funk com a ginga latina, deixando claro que o trabalho tem que estar sempre associado aos prazeres. Em um momento tomamos os famosos ônibus e, de repente, nos supreendemos com uma fumaça que saía do painel do motorista; este tranquilamente abriu o painel e começou a "consertar" enquanto ainda pilotava. A fumaça aumentou e um pequeno incêndio se iniciou, durante uns 10 segundos ou um pouco mais... O que mais nos impressionou foi que ninguém se alterou ou se alarmou, somente eu e a Marcela. Após o acontecido caímos na risada, tudo "tranquilo pá", como dizem os paraguaios.

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