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Meu relato de parto

Atualizado: Abr 8


Foi preciso esperar exatamente 41 semanas. Na madrugada de Sábado, 21 de abril de 2018, minha filha veio para os meus braços, e vivenciei a experiência mais intensa e mágica da minha vida.

A história do meu parto começa bem antes de eu ficar grávida. Em 2013 vivi um mês em uma aldeia indígena, uma experiência que trouxe à minha vida questionamentos sobre o real papel da mulher na sociedade. Escutei daquelas mulheres ditas “não civilizadas”, que nós, “civilizadas”, não éramos capazes de ser protagonistas do próprio parto. Isso mexeu muito comigo e com o que eu acreditava ser “normal” quando o assunto era a chegada do filho amado.

Após esse primeiro insight, a vida me presenteou com outros encontros, momentos e experiências que me revelaram o poder que temos ao ser mulheres, como quando conheci uma autora de um livro sobre parto medicalizado no Chile, ou quando vivi alguns meses num Ashram Xamânico, na Bolívia.

No ano passado, depois de dois anos viajando pela América Latina, vivia no México com meu marido quando decidimos ficar grávidos. Sim, nossa gravidez foi super planejada e desejada; e a primeira coisa que fiz quando a confirmei foi buscar uma doula, antes mesmo de buscar um ginecologista; e começamos a ler muito sobre parto natural e maternagem.

Doulas são mulheres empoderadas e capazes de empoderar e ajudar outras mulheres antes, durante e após o parto; são como bruxas, mulheres especiais que carregam consigo o saber e o sagrado feminino.

Tínhamos a doula, tínhamos o ginecologista, tínhamos um hospital se fosse necessário, tínhamos toda a estrutura para o nascimento de nossa filha, mas eu necessitava algo mais, e bateu uma vontade forte de voltar ao Brasil.

Decidi voltar ao meu país, mais especificamente a Belo Horizonte, porque ali, além da minha família, havia o hospital Sofia Feldman, referência em parto humanizado pelo SUS. Estávamos a quase três anos fora, e não tínhamos uma casa; então fomos para a casa de minha mãe. Eu sabia que como eu não tinha meu ninho, o Sofia seria esse lugar especial para receber minha filha.

De volta ao Brasil, dei início ao pré-natal no Sofia e comecei a participar das terapias alternativas que eles oferecem às gestantes.

Tínhamos uma maternidade, já tínhamos uma doula (a linda Lena que já me apoiava antes mesmo de retornar ao Brasil) e um ginecologista. Nos restava esperar pelo tão sonhado parto natural.

Foram nove meses de uma gestação majoritariamente tranquila, com prática de atividade física e boa alimentação. Sou ovolactovegetariana, mas comi peixe e frango nos últimos meses de gestação para reforçar o ferro no sangue.

Lá estava eu com 38 semanas quando, por pura curiosidade, quis fazer um ultrassom para ver como estava minha bebê, e detectaram um baixo índice de líquido amniótico (ILA). Será que isso é grave? Como protocolo, fui encaminhada para a obstetra de plantão e, pela primeira vez, recebi a recomendação de induzir o parto, para minha surpresa.

Medo, insegurança, sentimento de impotência e de que todos os meus planos e desejos para este nascimento estavam em cheque.

Respiro fundo. Sou taurina, e obstinada (ou teimosa?), e não desistiria assim. Podemos e devemos pedir uma segunda opinião. Assim, dissemos (meu marido e eu) à obstetra que iríamos para nossa casa pegar nossas coisas e voltaríamos no final da tarde para a indução. Não voltamos.

Voltamos no outro dia ao hospital e conversamos com o doutor Lucas, nosso ginecologista, que em dez minutos disse o que queríamos ouvir: “o ILA está realmente baixo, mas nada preocupante. Vá para casa, beba bastante água, e volte em alguns dias para acompanharmos”.

Sem mais, seguimos sua recomendação. Seis litros de água por dia durante uma semana para modificar o quadro. Fizemos um novo ultrassom e o ILA voltou para a faixa considerada normal.

Com 40 semanas, novo ultrassom, e o ILA continuava normal. Porém, foi verificado que minha bebê estava abaixo do peso considerado como normal para sua idade gestacional. E pela segunda vez nos recomendaram a indução do parto... “bendito” protocolo!

De novo dissemos que gostaríamos de buscar uma segunda opinião, e voltamos para casa. Como eu sou pequena, minha família é de pessoas pequenas, e também meu marido, uma surpresa seria termos uma bebê grande. Novamente o Lucas nos encorajou a esperar, já que nossa bebê estava bem dentro do útero, e nos recomendou fazer um descolamento de membrana, uma manobra para facilitar a entrada em trabalho de parto.

Depois de mais um dia de terapia alternativa no Sofia, com 40 semanas e seis dias conseguimos realizar o descolamento de membrana, e voltamos para casa. A ansiedade estava nas alturas.... Quando chegaria minha filha?

No final do dia comecei a ter umas sensações. Seriam contrações? Começamos a observar. Em duas horas elas já eram fortes e ritmadas; a cada dez minutos uma nova onda. Sim, eu estava em trabalho de parto!

Fui para a bola de Pilates e avisamos a doula Lena, que nos recomendou acompanhar as contrações e avisá-la quando o intervalo entre elas diminuísse. Fui para o chuveiro, os intervalos diminuíam e a intensidade aumentava; já eram três contrações em dez minutos. Muita dor. Meu marido conversou com a Lena novamente e ela deu o sinal: “Nos encontramos no Sofia”.

Minhas irmãs nos levaram de carro. A cada contração eu urrava de dor, e despertava a atenção dos outros motoristas.

Chegamos ao hospital às 23 horas; ele estava vazio. Antes mesmo de fazer minha ficha, invadi a sala de admissão pedindo para ser examinada. Me deitei na maca; veio uma contração, e eu berrei de dor. Uma enfermeira logo me examinou e constatou “três centímetros de dilatação”. Ai meu deus! Ainda faltam sete! E eu já estava pedindo anestesia...

Então a Lena chegou, me falou algo no ouvido que eu já não me lembro, e tomou conta da situação. Na próxima contração ela me disse “Me abraça forte”, e foi o que eu fiz. Antes da próxima, ela segurou minha mão e me levou para o chuveiro quente da sala de pré parto, enquanto esperávamos a liberação da suíte da Casa de Parto.

Eu já não respondia por mim. Não tinha noção de lugar. Não tinha noção de tempo. Estava totalmente entregue às contrações. Tinha medo. Pedia anestesias, e a Lena dizia “Segura a minha mão”.

Então, em algum momento fomos para a Casa de Parto e fui direto para a banheira, que ainda estava enchendo.

As contrações eram cada vez mais intensas. Perdi o controle e a coragem várias vezes. Sentia não ser capaz de passar por este portal, que nos faz morrer para a vida que tínhamos e renascer para uma vida nova. Mas eu tinha ao meu lado meu marido e a Lena, minha doula, que segurava minha mão e me transmitia força; era como se a cada contração segurando a sua mão eu ganhasse um poder sobrenatural, e toda aquela dor simplesmente diminuía.

Às 3h um novo toque: 5 cm de dilatação; ainda estávamos na metade! O bebê estava bem baixo, mas uma parte do colo uterino impedia a cabeça de avançar, por falta de dilatação. Na próxima contração, a enfermeira obstetra Karine fez uma manobra para mover essa parte do colo uterino, liberando a passagem, com minha autorização.

Depois disso as contrações diminuíram.... Mas não deveriam aumentar? Naquele ambiente calmo, com pouca luz e com música ambiente, tive alguns minutos de contrações suportáveis; meu corpo descansou, relaxou, se preparou para a chegada da minha filha, recuperando as energias para o momento do nascimento.

Uma nova onda de contrações fortes começou, e logo comecei a sentir a cabeça querendo sair, dando início ao famoso círculo de fogo. Neste momento eu estava em contato com meu lado animal: eu urrava, eu rugia a cada contração. Orientada por minha doula, me toquei e senti a cabeça da minha menina. Uma mistura de sentimentos: sentia medo e sentia minha filha ali tão pertinho de chegar aos meus braços.

Pergunto o que está acontecendo e a Lena responde: “É sua filha que está nascendo”. Peço para colocarem a banqueta de parto dentro da banheira. Neste momento tenho vontade de fazer força, e entre gritos de “Estou fazendo cocôôôô”, tenho a certeza de que minha menina está pertinho. Sinto sua cabeça sair; nem espero a próxima contração e faço um pouco mais de força, e sinto seu corpo escorregar por minha vagina.

Ela mergulhou na água e veio para os meus braços trêmulos às 4:31. Minha filhinha! Minha filhinha!

Meus olhos cruzaram com os seus olhos pela primeira vez. Bem vinda ao mundo, Aira!

Sim, eu tive um parto natural na água, como sempre sonhei. E mesmo com todo o sentimento de medo e insegurança, que acredito ser normal considerando o contexto em que vivemos, essa sensação de poder e força que senti é indescritível. Cruzei um portal que me faz sentir uma supermulher, sem falsa modéstia, uma deusa criadora da vida, uma índia como aquelas que cruzaram minha vida no passado e que se fazem tão presentes neste momento. Eu fui PROTAGONISTA do meu próprio parto.

E ao abraçar minha filha só quero agradecer: à VIDA por permitir-me viver esta experiência; a minha doula LENA linda que, segurando minha mão, me ajudou a enfrentar de frente este portal empoderador; o meu marido, por acreditar em mim e me transmitir tranquilidade, essencial neste processo novo que descobrimos juntos; a minha família por todo o apoio; a equipe do SOFIA que com muito carinho nos recebeu; e a minha menina, Aira, que já chegou transformando a minha vida. Obrigada!

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