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Praias e Policiais

Atualizado: Abr 8


Projeto Ciclos - Diário de Bordo 32

Depois dos onze dias de silêncio e meditação no curso Vipassana, seguimos para uma cidadezinha chamada Santa Eulalia, onde muitas pessoas de Lima têm suas casas de campo. Lá ficamos hospedados quatro dias numa dessas casas lindas e aconchegantes, emprestada gentilmente para nós por Eugenie, que conhecemos no curso de meditação. Com uma cozinha equipada, a Marcela “voou”, preparando tortilha de batatas, pizza, húmus, tahine, bolo de api, pão de queijo e cremes saborosíssimos. Foram dias de comida vegetariana gourmet!!!

Depois de recarregar as baterias da alma e do corpo, continuamos a viagem rumo ao norte, com a Alma (é o nome do nosso carro) firme e forte nos levando. Fomos seguindo a costa peruana, bordeando o Oceano Pacífico através da Carretera Panamericana (cheia de pedágios). No segundo dia de viagem, já 700km ao norte de Lima, dormimos em frente à delegacia de polícia numa cidadezinha costeira bonita chamada Pacasmayo. No outro dia conhecemos um grande museu chamado Museo Señor de Sipán, construído cerca de onde foi encontrada uma luxuosa tumba de um líder de uma antiga cultura peruana chamada mochica. Estima-se que a tumba tenha dois mil anos de antiguidade; nela haviam muitos objetos pessoais de cobre e ouro do líder, além de sua esposa, suas concubinas, seu chefe militar, seu porta estandarte, um cachorro e duas lhamas, que era tudo o que o Senhor precisaria para entrar na outra vida (assim interpretam os estudiosos). Este líder foi batizado de Señor de Sipán.

Seguindo mais 400 quilômetros ao norte, passamos por vários pequenos povoados no deserto, um deles com o expressivo nome de Mala Vida (vida má). Enquanto a Marcela dirigia, eu olhava a paisagem e me perguntava: quem gostaria de viver num lugar com esse nome? Nossa parada se deu na pequena cidade costeira de Los Órganos, que nos enfeitiçou. Assim, acabamos passando nove dias por lá, dormindo em postos de gasolina e na frente de uma linda e pequena praia chamada Punta Veleros.

Perto de Los Órganos está a praia de Los Ñuros, que está numa vila de pescadores. Nela é possível nadar com tartarugas gigantes que frequentam a costa peruana, uma experiência interessante. Outra cidade famosa é Máncora, também pequena, onde se concentram artesãos, bares e surf. Lá reencontramos um casal de argentinos que havíamos conhecido em Copacabana, na Bolívia, e que está viajando em uma Van (por caminhos de apachetas). Mas o lugar que nos encantou foi a praia Punta Veleros. Estivemos uma semana dormindo na AlMa (nosso carro) em frente a ela, e já tínhamos uma vida organizada ali, com um lugar debaixo de árvores onde preparávamos comida e comíamos, um varal para secar as roupas, um lugar para enterrar nossos resíduos orgânicos, coqueiros de onde pegar cocos (fizemos duas expedições noturnas para pegar cocos, que eram colhidos pela Marcela, que se equilibrava nos meus ombros); todos os dias de manhã íamos correr na praia, e terminávamos a corrida com um banho de mar, na agradável água do pacífico.

O que mais nos chamou a atenção no Peru, principalmente neste trecho de Lima para o norte, foram os policiais. Praticamente todos os dias nos paravam na estrada (chegaram a nos parar quatro vezes em um único dia). No país é obrigatório ter um seguro chamado SOAT, que nós compramos quando entramos no país, mas que venceu depois de um mês, e nós estávamos com dificuldades para renová-lo por nosso carro ser estrangeiro (procure uma agência La Positiva para fazê-lo, e não um representante, pois na agência são mais bem informados). Estar com o SOAT vencido, levar as bicicletas sobre o carro, estar com as luzes apagadas na estrada, e ter o certificado de revisão técnica chileno vencido foram os argumentos que vários policiais, em diferentes momentos, usaram para nos ameaçar com uma multa. Algumas vezes víamos que estavam forçando a barra, como quando exigiam o certificado de revisão técnica chileno válido, sendo que não é competência do governo peruano exigir esse certificado (ele estava válido quando saímos do Chile). Mais de uma vez pensei que tomaríamos uma multa, mas no final eles sempre desistiam e nos mandavam embora. Eu nunca protestei contra a multa, e tampouco insinuei oferecer dinheiro como suborno. Mesmo assim, em um momento um policial me pediu dinheiro explicitamente, eu não dei e ele nos mandou embora.

A experiência que posso compartilhar sobre isso é: mantenha a calma sempre, e não ofereça suborno, pois pode ser exatamente isso o que eles estão esperando. Eu sempre procurei enfrentar a multa, e eles nunca nos multaram, seja porque tinham preguiça, seja porque gostaram de nós.

O Ecuador já estava logo ali.

Que aprendizados nos esperavam em nosso próximo país?

Mapa do trajeto

Informações da viagem

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