• Alan Frederico Mortean

Tenho um dia, se sei aproveitá-lo tenho um tesouro

Atualizado: Abr 8

Projeto Ciclos - Diário de bordo 24

Enfim chegou o dia da partida. Como em todo começo e recomeço, partimos com um friozinho na barriga, fruto de alguns medos... E se o carro quebrar? E se, além disso, estivermos num lugar sem contato? Onde vamos dormir?

Já temos experiência suficiente para saber que há muita solidariedade no caminho; é hora de partir, com muita alegria. Um novo ciclo se inicia, ou reinicia?

Foto 1: Ollin, nosso companheiro. Sentimos saudade!

Nos despertamos às 8 horas da manhã de 21 de marco de 2016, e às 10 horas estávamos saindo, depois de nos despedir de José, Alia, Ollin e Huitzi, a família que alugou um quarto para nós por dois meses e meio em El Quisco, Chile. Na saída, nos presentearam com uma linda bandeira do México, que iremos levar conosco até o destino final do Projeto Ciclos. Valeu!!

Em nosso primeiro dia de retorno à estrada fomos margeando a costa por caminhos tranquilos, rumo ao norte, parando em duas praias no caminho; uma delas estava na cidadezinha de Zapallar, era linda, pequena, com cor de areia entre o branco e o amarelo, cercada por rochas nos lados e por morros cheios de vegetação por atrás. Além disso, ao lado da praia havia um lindo parque cheio de árvores com uma espécie de anfiteatro onde os bancos eram troncos de madeira. A primeira noite no nosso ‘motor home’ foi num mirante depois da cidade, ao lado do mar; uma noite tranquila e de adaptação à nova cama.

Foto 2: Reativando nosso fogaozinho.

No outro dia não teve jeito de seguir por estradas tranquilas, então tomamos a Ruta 5, a principal estrada do Chile, que liga o país de norte a sul. É uma estrada muito boa, quase toda duplicada e com bastante movimento. A velocidade para os carros é de 100 ou 120Km/h dependendo do trecho, mas nós vamos em média a 80Km/h, e os demais veículos todos nos ultrapassam, inclusive os caminhões. A adrenalina do dia ficou por conta de um acidente que vimos acontecer no outro lado da pista entre uma Van levando uma carreta e um caminhão: a Van saiu da pista e o caminhão bateu no guardrail que separa as duas pistas e ali ficou. Paramos o carro, a Marcela ligou para os ‘Carabineros’ (a polícia chilena) avisando do acidente e eu fui ver se as pessoas estavam bem. Quando cheguei, já estavam todos fora de seus veículos conversando sobre o acidente; ninguém havia se ferido, apesar da imagem de destruição.

Depois de dormir num posto de combustível, encontramos logo de manhã um lugar para tomarmos banho quente gratuito, num descanso de caminhoneiros. Nosso destino neste dia era o conhecido Valle del Elqui, um vale por onde corre o rio Elqui, um reconhecido polo produtor de uvas e de Pisco no Chile (pisco é uma bebida alcoólica destilada de uva, com graduação alcoólica de cerca de 40 graus). O fértil vale, que está próximo à cidade de La serena, está cercado por pampa e deserto. Enquanto seguíamos nosso caminho pelo vale, uma caminhonete e um pequeno caminhão quase se tocaram quando os dois resolveram ao mesmo tempo nos ultrapassar... seria o segundo acidente presenciado em dois dias. Chegamos na cidade de Vicuña, talvez a maior do vale, com cerca de 30 mil habitantes, e dormimos ao lado dos Carabineros.

Em Vicuña visitamos o museu de Gabriela Mistral: professora, escritora prêmio Nobel de literatura, e diplomata chilena que viveu em vários países e tem um pensamento e uma história de vida bastante interessantes. Antes de sair da cidade compramos querosene para nosso fogãozinho para testar, pois não tivemos uma boa experiência utilizando diesel, que deixou as panelas pretas e com óleo. Dos combustíveis testados até agora, o melhor foi a gasolina, mas ainda não utilizamos a benzina branca. Saindo de Vicuña visitamos a represa do rio Elqui, onde é permitido caminhar pela barragem... uma paisagem linda, formada pelo contraste entre o rio azul celeste e as montanhas.

“Tenho um dia, se sei aproveitá-lo tenho um tesouro” – Gabriela Mistral

Foto 3: Museu Gabriela Mistral, Vicuña, Chile.

Sempre seguindo rumo ao norte, alguns dias depois era dia de ir visitar o Observatório Astronômico La Silla, do qual falamos neste post especial. Ele está a 2400m de altitude, sobe-se bastante para chegar até lá, de onde podemos ver vários quilômetros de paisagens ao redor, com tons que variam do amarelo areia ao marrom. Ali sentimos que havíamos entrado realmente no deserto de Atacama, o mais árido do mundo; nos sentimos acima de tudo, já que as montanhas vizinhas são menores; o céu é limpo, o sol é intenso e o vento é forte. Depois da visita, voltamos pela estrada alguns quilômetros e paramos num lugar que já foi um pequeno aeroporto, pensando que estávamos sozinhos. De noite acendemos a churrasqueira (sim, levamos uma pequena churrasqueira conosco, que foi comprada pela família da Marcela quando vieram nos visitar em Valparaiso, Chile) e comemos batatas assadas sob o céu mais estrelado de nossas vidas.

Foto 4: A caminho do observatório La Silla.

De madrugada descobrimos que não estávamos sozinhos quando, às 3:00, tivemos a visita de um camundongo no carro, e de outro às 6:00, que haviam entrado por um espaço que havia ao lado de cada pneu traseiro, e que tapamos posteriormente. Eles nos tiraram o sono, e assim começamos a viajar antes do sol aparecer, indo até Vallenar, 101 km adiante. Lá ficamos duas noites na casa de Carolina (Couchsurfing), que é agricultora, cultiva uvas que são vendidas a uma grande fábrica de pisco chamada Capel. Ela cultiva 5 hectares; chegamos uma semana antes da colheita, que neste ano será de 300 toneladas, segundo Carolina. É impressionante como são doces as uvas; levamos alguns quilos para nossa viagem.

Na saída de Vallenar encontramos um protesto que estava fechando o caminho, e tivemos que fazer um caminho alternativo junto com outros dez veículos, seguindo um carro da polícia, e nesse caminho tivemos o primeiro furo de pneu do carro, que fomos notar quando paramos num posto de combustível para encher os pneus. Sorte nossa que na frente do posto havia um borracheiro.

Foto : Alan entre cachos gigantes, um paraíso doce.

Neste dia viajamos bastante, cruzamos um parque nacional no deserto, numa estrada bem bonita, cheia de curvas e com uma paisagem diferente, com várias montanhas, e chegamos numa estrada ao lado do mar. No final do dia entramos num povoado costeiro que parecia desabitado. As casas estavam conservadas, mas não víamos luzes ou pessoas; saímos de lá, avançamos um pouco numa estrada de terra deserta e dormimos no deserto, num ambiente de quietude.

Depois de descansar, fomos conhecer Bahia Inglesa, um oásis no deserto: areia branca e água azul, um povoado totalmente turístico, mas com pouco movimento nesse dia. Acabamos indo dormir em Caldera, a cidade vizinha, buscando carregar o computador, o que fizemos na praça da cidade que disponibiliza algumas tomadas públicas; dormimos ao lado dos carabineros novamente.

A água do radiador da AlMa (nosso carro) nos está pregando uma peça... Todos os dias colocamos um pouco... às vezes duas vezes. Ainda não entendemos porque, já que não há fuga de água visível.

Foto 5: Marcela e o Valle de Elqui.

Seguimos para o Parque nacional Pan de Azúcar, onde pretendíamos passar uma noite. Chegamos 4 ou 5 da tarde e não havia ninguém na portaria; avançamos e chegamos aos pontos de camping, que custavam 5 mil pesos chilenos por persona, mais de 35 reais por pessoa. Muito caro para nós. Então voltamos e paramos em uma praia grande e deserta; cozinhamos, corremos até o mar (aproximadamente um quilômetro), entramos na água, voltamos e comemos. Foi lindo!!

No próximo café-da-manhã estávamos numa serra no deserto, com neblina, sol nascendo, e aroma de café e pão de queijo no ar, preparados pela Marcela. Os momentos de alimentação são sempre especiais. Nesse dia viajamos 5km e a luz do radiador se acendeu. Paramos, abri o capô e vi água verde para todos os lados, uma mangueira se havia partido. Em duas horas adaptamos uma nova mangueira; fiquei feliz por podermos consertar o problema juntos; há um mês atrás eu não teria ideia do que fazer com um problema desse tipo no meio do deserto... Vivendo e aprendendo!

Foto 6: Curso de mecânica na marra.

Sempre seguindo pelo litoral, teimosamente continuamos na Ruta 1, onde estávamos há um dia, e fizemos vários km em estrada de terra, com costelas de vaca e pontos de areia fofa, um caminho deserto. Foram dezenas de km, não sei bem quantos, até chegar à Cuesta del Cobre, que subimos por outras dezenas de km de deserto e montanhas, e chegamos à Ruta 5 novamente, pertinho da cidade de Antofagasta. Foi um caminho difícil e ficamos preocupados com a AlMa, mas ela superou.

De noite, depois de cinco dias pudemos nos banhar novamente. Após o banho, dentro do carro, cercados pelas paredes marrons, com a cama arrumada, a mesa posta, e com o ambiente iluminado com uma reconfortante luz amarela, comemos um completo (espécie de cachorro quente chileno) sem salsicha cada um. Sim, os momentos de alimentação são especiais!

Foto 7: O caminho mais difícil e surpreendente.

Já nos aproximávamos de San Pedro de Atacama e, portanto, da divisa com a Bolívia e Argentina, mas ainda não sabíamos qual caminho tomar... Sem pressa, deixaríamos que a viagem nos guiasse...

Informações da viagem:

Mapa do trecho:

Dia 364 ao 376, 21/03/2016 a 02/04/2016

De El Quisco, Chile (casa Jose e Alia)

Para Las Negras, Chile (posto de combustível Copec)

Gastos até agora (R$): 19.520,80

Gastos por dia (R$): 51,92

Distância pedalada até agora (km): 3319

Distância percorrida de carona, de ônibus, de barco e de trem até agora (km): 6923

Distância percorrida com a AlMa até agora (km): 1864

Furos de pneu até agora: 12

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