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Bem-vindo à Patagônia -  Entre Trens!

Atualizado: Abr 15


Diário de bordo 11 - Projeto Ciclos

De Buenos Aires a Bahía Blanca, 600km ao sul, foram 14 horas de viagem na classe “turista”, a mais econômica do Trem estatal Ferrobaires. Viajamos pela primeira vez em trem e, apesar do frio, do desconforto dos bancos, das crianças que não dormiam e ficavam chutando nosso banco por trás, e da luz acesa durante toda a noite, foi uma experiência interessante, e até romântica, sacolejando suavemente com o movimento do trem, sentindo-o parar nas estações e escutando seu apito a cada nova partida. A passagem nos custou apenas 40 reais para cada um, mais 25 para levar cada bicicleta, sem ter que desmontá-las.

Foto 1: Esperando o trem.

A Argentina possuía até os anos 90 uma grande malha ferroviária distribuída por todo o país; a partir daí o governo nacional adotou a estratégia de privatizar as linhas (qualquer semelhança com o Brasil na mesma época não é mera coincidência), e elas acabaram sucateadas, com a maioria parando de funcionar. Atualmente, a estratégia adotada tem sido a de reestatizar as linhas ferroviárias; assim, aos poucos, o governo está investindo novamente neste tipo de transporte, que é, de longe, mais eficiente que o transporte individual realizado nos automóveis, o que o torna mais barato. Neste tema, nossos “hermanos” estão mais adiantados que nós, brasileiros.

Foto 2: Desembarcando em Bahía Blanca.

Desembarcamos em Bahía Blanca, conhecida como a Porta da Patagônia, na quarta-feira, 12 de agosto às 10:30 da manhã. Depois de dar os parabéns à minha irmã por seu aniversário, pela internet, buscamos a casa de nosso contato na cidade (através da rede de hospedagens gratuitas Couchsurf), Martin, um jornalista jovem que possui um programa numa rádio local e que nos levou para uma divertida entrevista ao vivo, onde falamos de nossa lua-de-mel em duas rodas.

A Patagônia é uma região marcada pelos ventos que ocorrem em grande parte do ano. Além de leões-marinhos, nessa região existe uma grande concentração de pinguins. Localiza-se na Argentina e no Chile, e integra a seção mais ao sul da cordilheira dos Andes, rumo a sudoeste até o oceano Pacífico, e, a leste, até os vales em torno do rio Colorado até Carmen de Patagones, no oceano Atlântico. ( Fonte: Wikipedia)

Nosso plano para a região era sair de Bahía Blanca e pedalar 280km até Viedma, pela Ruta 3, onde tomaríamos outro trem para Bariloche. Em princípio pensávamos em ir por caminhos alternativos, o que não fizemos por medo de chegarmos a Viedma e não haver mais lugares no trem, que parte apenas uma vez por semana a Bariloche.

Foto 3: Aqui começa a Patagônia!

Na Patagônia vento é algo sério, a ser levado em consideração por quem deseja aventurar-se pedalando por ela. Nosso guia na questão vento é o site Windguru (www.windguru.com.cz), que mostra direção e intensidade dos ventos em praticamente todos os lugares do mundo. Lhe consultamos e vimos que o vento estaria indo para o sul nos próximos dias, justamente na direção em que estávamos seguindo. Saindo de Bahía Blanca, pedalamos pela Ruta 3, empurrados pelo vento e acompanhados por um frio de 4 graus. A pedalada fluiu tão bem que batemos nosso primeiro recorde, percorrendo 95 km num só dia, no mesmo dia em que completamos 2000 km pedalados!! Nos últimos momentos de sol chegamos à cidade de Mayor Buratovich e acampamos em uma “estación de servicio” (posto de gasolina), com direito a banheiro e internet.

Foto 4: Precaucion.

No dia seguinte o vento não estava favorável e resolvemos parar mais cedo, após 36 km, na cidade de Pedro Luro. Esta região é uma grande produtora de cebolas, que abastecem o mercado interno e externo; as cebolas argentinas encontradas no Brasil vem todas daqui. Na entrada do povoado avistamos um amontoado de cebolas do lado de fora de um grande galpão; entramos e perguntamos se podíamos levar algumas, e saímos de lá com uma sacola delas, que se tornaram mais tarde uma deliciosa “salsa” (molho) para acompanhar uma salada de rúcula e os “chapatis” feitos por nós (uma espécie de pão sírio, feito de trigo). Delicioso!!!

Foto 5: Freeganismo. Cebolas que nos alimentaram no jantar

A cidade de Pedro Luro é turística, pois aí se encontram termas, onde tentamos acampar sem sucesso; e uma igreja católica onde está a padroeira do agricultor argentino, que recebe peregrinos de todo o país. Cansados e com o Alan gripando, preferimos pagar para passar a noite no hotel dos peregrinos, que tem um clima de oração e silêncio reconfortantes. No outro dia, no momento em que saíamos, ocorria uma cerimônia onde cantavam-se lindas músicas.

Bons ventos...Em clima de meditação, talvez influenciados pelo clima do hotel, começamos a pedalar, e bons ventos nos empurraram “adelante”. O resultado foi: outro recorde, 115 km num dia! Esta noite passamos em Paraje La Querencia, um lugar na beira da estrada, que já foi um ponto de parada de motoristas, com lanchonete e restaurante, mas que hoje está desativado. Ali montamos acampamento atrás de umas arvores e próximo a uns trailers.

Amanheceu e o vento continuava forte, nos empurrando para o sul, e com 4 horas de pedal chegamos a Carmem de Patagones. Na cidade nos deparamos com um clima de feriado, muitas crianças nas praças, comércio com as portas fechadas e um lindo dia de sol. Buscando um lugar para passar a noite e acessar a internet, nos direcionamos para os bombeiros para pedir abrigo, mas eles não nos permitiram ficar...e agora? Não muito confiantes, resolvemos tentar na polícia local. Na delegacia, Nicolás, um jovem policial, nos atendeu e, prestativo, tentou nos ajudar ligando para alguns campings, mas sem sucesso. Depois de ligar para o terceiro camping, ele desligou o telefone, ficou em silencio por alguns instantes como se estivesse refletindo, e disse: vocês podem ficar na minha casa. Uaau, por essa não esperávamos!! Ele iria trabalhar durante a noite e sua casa ficaria vazia, então ele nos abrigou, mesmo com seus colegas reprovando sua atitude. Além de casa, nos deu comida e nos levou para passear e conhecer os alcantilados de Viedma no outro dia, que são lindos e enormes barrancos de rocha sedimentar onde vive a maior colônia de loros do mundo; um lugar simplesmente fantástico, me emocionei ao chegar ali e ver tamanha beleza natural, sentindo que podia contar com o apoio de pessoas tão queridas.

Foto 6: Ruta 3, rumo à Viedma.

Viedma, nosso próximo destino, fica ao lado de Patagones, sendo dividida deste pelo rio Negro. Ali ficamos na casa da Carla, uma ótima anfitriã, que nos deixou totalmente à vontade em sua casa, nos deu vários presentinhos, nos levou a uma aula de tango e ainda me deu várias dicas de fotografia.

Em trem chegamos a Bahía Blanca, em trem partimos de Viedma; entre trens começamos nosso percurso pela famosa Patagônia argentina. Desta vez um trem mais pontual e confortável do que na nossa primeira experiência, e também mais caro; seguimos por 820km, do Oceano Atlântico para a Cordilheira dos Andes, buscando a neve e novas experiências de vida, na cidade turística de San Carlos de Bariloche.

Foto 7: Despedida em Viedma! Carla e Nicolás.

Informação do percurso

Foto 8: Mapa do percurso

Dia 142 ao 151 - 12/08/2015 a 21/08/2015

De: Bahía Blanca, Argentina

Para: San Carlos de Bariloche, Argentina

Gastos até agora: R$7767,00

Gastos por dia: R$51,44

Distância pedalada até agora: 2254km

Distância percorrida de carona, de ônibus, de barco e de trem até agora: 2739km

Furos de pneu até agora: 9


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