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Seguindo, como o Rio Uruguai

Atualizado: Abr 7


Diário de bordo 8 - Projeto Ciclos

Completamos 4 meses de viagem, com 127 dias de estrada e 3217km percorridos, dos quais 1928km foram pedalados; enfim chegamos a Colônia del Sacramento, no Uruguai. Daqui seguimos para a Argentina, mas antes vamos compartilhar nossos últimos dias de pedal por este país, que se localiza a leste do grande rio Uruguai.

Foto 1: Colônia del Sacramento/ Uruguai.

Queguayar, Paysandú, San Javier, Nuevo Berlin, Mercedes, Villa Soriano, Dolores, Nueva Palmira, Carmelo, Conchillas e Colônia del Sacramento. Desde que saímos de Termas de Dayman foram 20 dias de viagem, 11 cidades visitadas, 2 aparelhos eletrônicos quebrados, 4 banhos, 8 campings, 2 garrafas de vinho e algumas histórias para contar.

Foto 2: Geada noturna em Termas del Dayman. De manhã a grama estava toda congelada.

Após o término de nossa larga estadia nas Termas, seguimos nossa viagem em uma manhã gelada, gelada mesmo! A paisagem branca de frio assistiu nossa preguiçosa e friorenta partida. Nosso plano era percorrer o “litoral” do rio Uruguai até sua desembocadura no Rio de la Plata, conhecendo sua história, suas cidades, suas paisagens e principalmente seus habitantes, os uruguaios que vivem às margens deste típico rio de planície, com seu grande volume de água. O rio é tão importante que deu nome ao país.

Foto 3: Café- da - manha.

Já no primeiro dia percorremos 70 km; queríamos chegar à casa de uma amiga pois fazia frio e desejávamos dormir em um lugar mais aquecido. Todo o trajeto foi feito com tranquilidade, segurança e frio. O dia estava lindo e a vontade de pedalar nos fazia avançar com relativa rapidez. Assim, ao final da tarde chegamos à casa de Myrian, que nos acolheu com muito carinho, calor e batatas. Mesmo com o frio, durante a noite dormimos com uma fresta da janela aberta, que ventilava o ambiente mas também permitia a entrada do frio, pois eu tive medo de dormir e não acordar mais por causa da lareira que estava acesa.

Vivos e descansados, levantamos no dia seguinte com ganas de chegar a Paysandú, onde também tínhamos um lugar para ficar. Paysandú é a capital do Departamento de mesmo nome, sendo a terceira maior cidade do país, com 90 mil habitantes (a primeira é a capital Montevideo, com quase 2 milhões), segundo Cólo, uruguaio que nos recebeu em sua casa. Dois terços da população uruguaia está concentrada na capital, e o restante está espalhado pelo país, conformado por muitas pequenas cidades de menos de 10 mil habitantes.

A partir dali, depois de Paysandú, não tínhamos mais nenhum contato: seguiríamos margeando o rio, sairíamos das rotas principais e entraríamos em rotas alternativas. Nosso próximo destino era a cidade de San Javier, colônia russa que está às margens do rio Uruguai, com uma pequena e jovem população. Antes de chegar ali eu caí da bicicleta numa subida tranquila; não me machuquei, mas me assustei e fiquei com medo. Não foi o primeiro tombo nem meu primeiro medo, tenho muitos medos e tombos, mas sigo, continuo, sempre me levanto e pedalo, pois acredito que é mais importante seguir do que ficar parado. Assim faço na vida, assim faço na estrada.

Foto 4: O tombo.

Sem contatos, o jeito é montar a barraca em um lugar seguro e aproveitar a viagem, mas como saber se o lugar é seguro se recém chegamos? Um tanto estranho, não? Confiar que existam pessoas boas, que nada vai acontecer é um desafio constante para mim e que tem me surpreendido; estou aprendendo sempre, vivendo esta grande experiência. As cidades do Uruguai também ajudam muito, pois sempre são pequenas e não muito povoadas, tornando mais tranquila nossa hospedagem.

Foto 5: Acampando na praça de San Javier.

Depois de mais um dia de pedalada chegamos a Nuevo Berlin junto com forte vento contra e nuvens pesadas. A busca por um lugar com teto para acampar começa, é preciso encontrar um espaço antes que a noite caia, mas antes de encontrar nosso paraíso conhecemos lindas pessoas que desejavam conhecer nossa história. Ofereceram hospedagem para a próxima cidade, além é claro, de nos auxiliar a encontrar um lugar para ficarmos. O pôr-do-sol estava lindo e nos chamava para a beira do rio, mas num rápido momento, num descuido, nosso computador vai ao chão e se quebra. O lindo pôr-do-sol e a energia que brindava nossa chegada a Nuevo Berlin simplesmente desaparecem. Ficamos paralisados diante da nova realidade…respiramos, silenciamos e depois de alguns minutos decidimos: nada de abatimento. Resolvemos quando for possível. Neste meio tempo o sol se foi, e a noite já escurecia tudo. Dormimos no Clube de pescadores da cidade, protegidos e bem alimentados

Foto 6: Rio Uruguai.

Antes de sair de Nuevo Berlin com destino à casa de Virgília e Gonzalo, em Mercedes, encontramos duas senhoras que nos presentearam com frutas e biscoitos para o café-da-manhã. Chegamos cansados, pois o vento contra dificultou os 35 km que separavam as duas cidades. Virgília e Gonzalo nos receberam com muito carinho; em sua casa descansamos e nos banhamos, e ainda visitamos com eles alguns lugares da cidade.

Conhecendo a região, eles nos indicaram nosso próximo destino: Villa Soriano. Quando nos levantamos e partimos de Mercedes, a temperatura era de -3°C, com forte neblina às margens do rio Negro. A paisagem incrível deixava estes dois brasileiros como loucos para registrar sua beleza, mesmo que para isso tínhamos que enfrentar temperaturas abaixo de zero.

Foto 7: A incrível paisagem de Mercedes em meio ao frio, às margens do Rio Negro, afluente do Rio Uruguai.

Uma taça de vinho foi nosso desjejum em Mercedes: paramos para fotografar o Castelo de Mauá, (sim, o brasileiro Visconde de Mauá (século XIX) esteve por aqui, onde possuía uma grande faixa de terras, e construiu um casarão que é conhecido pelo nome de Castelo de Mauá), que é bem grande, e onde hoje funciona uma escola pública, a bodega Mauá, e um museu paleontológico, e ainda há todo o andar superior abandonado... Agora você acredita que é um Castelo? Ali conhecemos o processo artesanal de fabricação de vinhos, provamos um que estava sendo engarrafado naquele dia e levamos uma garrafa para a viagem.

Foto 8: Frente do castelo de Mauá; não havia como fotografar todo o castelo de uma vez.

Seguimos pela Ruta 95 até o pueblito de Villa Soriano, primeira cidade fundada no Uruguai. Hoje com 1500 habitantes a cidade se prepara para o turismo. Acampamos nos fundos do centro de informação turística ao lado do rio, durante a noite fez muito frio e quando nos despertamos os selins das bikes e a barraca estavam com uma cobertura de gelo. Dentro da barraca a temperatura estava confortável, primeira prova de fogo, digo, de frio, de nossos de sacos de dormir. Alan gostou tanto da cidade que queria morar ali, e acabamos ficando duas noites. O pueblito é realmente um encanto, mas é preciso seguir viagem.

Foto 9: Selins congelados!!

Seguindo as margens do rio, em Dolores acampamos numa península parque; dormimos protegidos do frio dentro de uma cabana. Ali existem muitas para fazer churrasco, com várias mesinhas para tomar mate. Isso é muito legal aqui no Uruguai, em todas as cidades sempre encontramos praças, parques, praias com espaços para as pessoas sentarem, conversarem, prepararem um churrasco e tomar um mate, espaços de convivência entre os moradores e visitantes, espaços para compartilhar e passear, sempre muito frequentados pelos uruguaios.

De Dolores seguimos para Nueva Palmira, onde conhecemos Giani, um jovem uruguaio que percorreu todo o Brasil em bicicleta no ano de 2014, durante seis meses. Quando nos viu, num posto de gasolina, ofereceu a casa de seus pais para ficarmos em Colonia del Sacramento. Que legal! Ficamos muito felizes, pois queríamos parar um tempo maior nesta cidade, que é histórica e turística.

Seguimos para Carmelo no dia seguinte, onde ficamos por uma noite acampados, agora na beira do Rio de la Plata. O rio Uruguai e o rio Paraná já haviam se juntado e formado o “mar” do Rio de la Plata. É tanta água que, parados numa margem, não conseguimos enxergar o outro lado do rio.

Foto 10: Caminhos de Carmelo.

Conchillas, próxima cidade que paramos, é um pueblo fundado por ingleses. Em sua história há um famoso personagem, inglês, único sobrevivente de um naufrágio, que conseguiu nadar até a margem da cidade e ali se estabeleceu. Empreendedor, começou vendendo comida aos trabalhadores de uma fábrica, e depois de anos fundou um comércio que teve autorização do governo uruguaio para emitir sua própria moeda.

No dia seguinte a ideia era sair de Conchillas e pedalar até Los Cerros de San Juan por um caminho de terra que existia em nosso GPS. Mas chegando ao caminho uma surpresa, ele está dentro da área comprada por uma megaempresa de celulose, a Montes de la Plata, que se instalou na cidade há 3 anos, e que colocou um alambrado ali impedindo pessoas de passarem. Nunca havia visto isso: é como se uma empresa comprasse uma estrada e impedisse as pessoas de transitar nela. Durante todo o dia pedalamos, buscando caminhos alternativos que nos levassem a Los Cerros, mas sempre dando de cara com porteiras trancadas ou caminhos sem saída. No final do dia, de 17km planejados, havíamos pedalado 45km, e estávamos dentro de Conchillas ainda. Encontramos um galpão vazio e pedimos para acampar, e muito amavelmente duas famílias nos acolheram. Passamos esta noite com ventos acampados dentro do galpão que é mostrado na foto a seguir.

Foto11: O Galpão

Enfim vamos chegar a Colônia del Sacramento. Nos despertamos mais cedo que de costume pois dormimos cansados e cedo na noite anterior; enquanto organizávamos as coisas, o Alan percebeu que nosso celular havia se molhado de noite depois de cair dentro de uma panela com água... Eitaaaaa outro eletrônico quebrado? E ainda com o contato de Giani, de Colonia. Melhor deixar secar e tentar ligar mais tarde. Saímos com destino a Colonia pela Ruta 21, que estava pouco movimentada; com o vento soprando a favor, ficou fácil chegar na cidade. Paramos para um segundo lanche, faltando cerca de 8 km e decidimos ligar o celular, que não funcionou. Dois eletrônicos quebrados, nossos contatos afogados juntos com o celular, não tínhamos ideia do que fazer . Decidimos seguir, uma ideia tinha que surgir no meio do caminho.

Assim, ansiosos e preocupados, chegamos a Colônia. Buscamos uma loja de reparos de celular, mas era hora da “ciesta” e ela estava fechada. Quando a loja finalmente abriu, nos disseram que o técnico responsável chegaria ali só depois das 17h... Não podemos acreditar!!!!!!

Buscamos um cybercafé para acessar a internet e tentar encontrar alguma informação do Giani, e encontramos seu nome completo em uma reportagem de um jornal sobre sua viagem de bicicleta ao Brasil. Com seu nome completo chegamos ao seu Facebook. Através de seu Facebook o dono do cybercafé viu que ele tinha uma amiga em comum com Giani, e nos disse como encontrá-la. Fomos busca-la, e para nossa alegria ela nos explicou como chegar na casa que procurávamos. Chegamos, chamamos e depois de um tempo a mãe do Giani apareceu e nos recebeu. Que alivio!!! Quantas pessoas nos ajudaram para que chegássemos!!

Estamos em Colônia agora com muitas coisas para fazer e resolver antes de seguir nosso caminho por meio de um barco que nos levará até Buenos Aires, cruzando o “mar” do Rio de la Plata.

Foto 12: Chegando a Colônia del Sacramento/ Uruguai.

Informação do trajeto

Foto 13: Mapa do percurso

Dia 110 ao 127 - 10/07/2015 a 28/07/2015

De: Termas de Dayman, Uruguai

Para: Colônia del Sacramento, Uruguai

Gastos até agora: R$3107,05

Gastos por dia: R$29,19

Distância pedalada até agora: 1928km

Distância percorrida por outros transportes até agora: 1289km

Furos de pneu até agora: 7

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