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Barbeiro e Mal de Chagas em casas de pau-a-pique?

Atualizado: Abr 7

Todo mundo já deve ter escutado algo relacionando o Mal de Chagas (ou doença de Chagas, ou tripanossomíase americana) a construções com terra, mais especificamente casas de pau-a-pique.

Quando se fala de casas de pau-a-pique, que imagem lhe vem à cabeça?

Esta?

Ou esta?

Ou esta?

As três construções estão feitas utilizando pau-a-pique.

A construção com terra é uma tecnologia milenar, utilizada pelo homem para levantar edifícios domésticos e monumentos, mesquitas, igrejas, palácios, fortalezas e cidades inteiras há 10 mil anos; mas que, nos últimos 100 anos, foi sendo abandonada e estigmatizada como uma tecnologia marginal e precária. Cabe a nós buscarmos o caminho do equilíbrio, utilizando tecnologias mais recentes em conjunto com a construção com terra, que possui várias vantagens:

  • Disponibilidade: é um material naturalmente disponível em quase qualquer parte do planeta;

  • Emissão de CO2: quase nula em sua “fabricação” (apenas emissões naturais), diferentemente do cimento que emite toneladas e toneladas de gases nos alto fornos;

  • Reutilização: a parede de terra é 100% reutilizável, ou seja, é possível derrubar uma parede e reutilizar toda a terra para fazer outra parede.

  • Durabilidade: há construções de terra no Irã que tem dois mil anos. Quer mais exemplos? Que tal o Taj Mahal (feito de terra, com estrutura de bambu)... ou a Muralha da China (todo o preenchimento feito com terra, compactada pela cavalaria do próprio exército chinês). Exemplos brasileiros? Mais de 40% dos prédios, como igrejas centenárias, registrados pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) são de adobe (tijolos de barro crus) ou pau-a-pique. O comportamento das construções com cimento ainda são uma incógnita, pois a tecnologia é recente em nossa história (150 anos desde seu invento).

  • Conforto: as paredes de terra “respiram”, ou seja, trocam ar e umidade com o ambiente interno e externo, e quando a construção é planejada levando em consideração o clima, a posição do sol ao longo do ano e a direção dos ventos, podemos manter o ambiente interior da construção numa zona térmica de conforto, ao redor de 24oC;

  • Saúde: a troca de umidade e ar com o ambiente, e a capacidade para manter as temperaturas numa zona de conforto nos livram do ar condicionado e do mofo; nas paredes de terra não há produtos químicos voláteis, que podem causar problemas respiratórios; além disso, a terra atua como uma barreira natural contra o eletrosmog (“poluição” por radiação de antenas e eletrônicos);

  • Geração de resíduos: não gera entulhos durante a construção;

  • Cooperação: as construções podem ser feitas em mutirão, juntando os amigos e a comunidade;

Possíveis desvantagens da construção com terra:

  • Mão-de-obra: difícil encontrar profissionais capacitados;

  • Tempo de construção: mais elevado que a construção convencional, pelo tempo que a terra leva para secar-se, e por ser necessário produzir tudo na própria obra (no caso dos tijolos de barro, os adobes).

O “famoso” barbeiro, inseto que pode conter o protozoário transmissor do Mal de Chagas, (Trypanosoma cruzi) gosta de viver em locais escuros e secos. Em habitações, pode ocorrer tanto em construções de terra como nas construções convencionais de tijolo e cimento, desde que haja rachaduras e frestas onde o inseto possa se alojar. Então, uma habitação com um bom acabamento e boa incidência de luz, além de um entorno saneado, é a chave para manter o espaço livre do barbeiro.


Uma das possíveis conclusões que podemos tirar deste texto é: não aceitar tudo o que as pessoas dizem, especialmente a televisão, como “verdade” incontestável.

Toda “verdade” pode e deve ser contestada, como a de que casas de terra são feias, insalubres, perigosas, e apenas para a população de baixa renda. Há um grande interesse econômico que motiva o endeusamento do cimento como o único material viável e seguro para a construção.

Pesquisemos, perguntemos a outras pessoas, debatamos, desenvolvamos nosso pensamento crítico... assim evoluímos!!!

Bibliografia:

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