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Dietista, eu?

Atualizado: Abr 7


Quando sentamos em uma mesa para realizar uma refeição, é inevitável a presença do assunto alimentação. Todos tem sempre alguma história para contar, uma dica para dar ou uma informação para compartilhar; enfim, o tema é explorado e discutido intensamente.

Eu, muitas vezes, me vi cercada de perguntas, o que me agrada, mas sempre me questionei sobre a veracidade de minhas respostas; academicamente falando, sou nutricionista e especialista em nutrição clinica. Será que isso me torna detentora da verdade sobre a alimentação?

Me graduei numa universidade de Belo Horizonte/MG em 2008 e me especializei em 2010. Terminados meus cursos, não me sentia preparada para responder a tantos questionamentos. Sempre fui uma boa aluna; dediquei-me para me tornar uma profissional competente e responsável, procurando sempre me manter informada sobre as novidades e pesquisas realizadas neste campo de atuação.

Durante minha graduação aprendi muita técnica e teoria. Aprendi sobre os alimentos e seus valores nutricionais e para qual doença cada alimento era adequado.

Mas o alimento é vida, não é? Por que sempre está associado a uma doença?

Aprendi a calcular e a recalcular dietas, pois me formava para tratar uma sociedade doente. O número de pessoas com diabetes, hipertensão, obesidade, câncer, entre outras patologias ligadas à alimentação vem aumentando progressivamente no Brasil e no mundo. De acordo com o Ministério da Saúde, só em 2010, 54 mil brasileiros morreram em decorrência do diabetes. Isso significa que a doença matou quatro vezes mais do que a Aids (12 mil óbitos) e mais do que o trânsito (42 mil). Assim, eu teria “clientes” ou “pacientes” em todas as faixas etárias e classes sociais.

Seria meu curso então uma invenção para tranquilizar as pessoas enquanto saboreiam um fast food?Afinal, é só ir ao nutricionista comprar uma dieta e tudo volta ao normal.

Não aprendi nada sobre o desenvolvimento e cuidado para com os alimentos. Assim como eu, milhares de profissionais desta área não sabem como se desenvolve, ou como são produzidos e processados os diversos alimentos que indicam para aqueles que os procuram em busca de uma solução para seus problemas. A relação dos nutricionistas com os alimentos fica restrita a prateleiras de supermercados e tabelas padronizadas da Associação Dietética Americana (ADA).

Neguei muitas vezes minha formação, não me sentia preparada, não conseguia responder meus próprios questionamentos para poder exercer a verdadeira nutrição. Nutrir as pessoas é mais que uma reeducação alimentar; é compartilhar informações que vão além de uma sala de aula, e praticá-las; é promover uma integração entre as pessoas e o alimento presente em suas mesas, que leve à saúde; é criar um vínculo entre o alimento e o homem.

A berinjela não nasce numa prateleira de supermercado. Assim como nós, os alimentos tem saúde, vida, energia e tudo isso vem da maneira como foram plantados, cultivados e colhidos. Eles terão mais saúde quanto mais rico for o solo, e poderão transmitir essa saúde àqueles que os consumirem.

Diante deste cenário, e cansada de fazer parte de um sistema que fomenta o consumo de produtos industrializados, ao mesmo tempo em que endeusa o corpo “perfeito”, fui em busca da verdadeira nutrição.

Atualmente, sou uma aprendiz de nutrição. Ainda não me sinto preparada para assumir minha formação, pois tenho muito que aprender. Quando estou em uma mesa e me questionam sobre nutrição, me sinto livre para dizer que não sei e que agora estou aprendendo o que é me alimentar. Hoje para mim os alimentos não são mais tratados como simples calorias, são excelentes fontes de nutrientes e de vitalidade que foram adquiridas enquanto eles se desenvolviam.

Sigo trabalhando em uma horta e aprendendo diariamente sobre o crescimento daqueles que nos enchem de vida e saúde. Aprendi como são lindas as flores da rúcula, como é delicado o crescer do Brócolis, a rapidez e a fantástica coloração da cenoura, rabanete e beterraba; enfim, tenho uma integração maior com a terra, minha fonte de energia, e com meu corpo.

Quero ser uma profissional dedicada em promover vida e não continuar me aproveitando da delicada saúde de nossa sociedade. E através deste texto, me direciono aos companheiros de profissão a se questionarem a esse respeito.

Por que não aprendemos nas universidades a plantar uma horta?

Afinal temos a responsabilidade de nutrir.

Não sejamos simples dietistas.

Feliz dia do Nutricionista.

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